• Larissa Shanti

Medo

A vida é feita de ciclos. Nascer, viver e morrer. Sentir, aprender e compreender. São nesses ciclos que encontramos nossos maiores desafios, as perguntas que carregamos no coração. Junto com as perguntas surge o sentimento tão profundo que preenche os espaços em branco, sutilmente. O medo. O medo de não ser suficiente, o medo de si, o medo do mundo.

Tememos. Tememos a vida assim como a morte, pois não temos controle. Apenas quando uma situação extrema agrava-se que tomamos a coragem para enfrentar esse medo. Coragem, o contrário do medo. Aquele sentimento de superar-se, mesmo encarando as dificuldades e sentimentos distorcidos pela mente. Entretanto acho que um dos aprendizados mais difíceis dessa vida é a coragem. Não é algo fácil olhar para dentro e dizer “eu consigo”. Encarar esse medo e dizer para si “sei que não é fácil, mas eu não preciso ter medo”.




Vejo o mundo hoje. A dor e o sofrimento aplacam o ser silenciosamente. A doença alcança seu auge. Por mais que o acesso à saúde e à educação tenham melhorado significantemente, mais e mais pessoas são abaladas pelo medo, pela dor, pela pergunta “por que vivo?”. E quando procuram por ajuda são rotuladas com uma doença, sua personalidade esquecida, seus sonhos irrelevantes. Tudo a seu redor tornasse uma caixa de comprimidos, esperando que isso apague essa dor que a corrói por dentro. Supondo que essas perguntas que tanto a machucam irão sumir. Em vez de ajudá-la a encontrar essa coragem apagada pelo medo.


Sim, tememos. E o medo dói, pois ele nos lembra das dificuldades, pois ele tira nossos sonhos, desafia-nos. Sofremos com o medo, assim como sofremos com a perda que ele nos traz. O medo quebra aquilo que amamos e nos afasta daquilo que desejamos. Por isso sofremos. E com o sofrimento vem a tristeza. Tão profunda quanto. Preenchendo os espaços sem esperança. A tristeza que abala o corpo, que apaga a chama quente que te mantem, que lhe da vitalidade, a vontade de viver. A tristeza que lhe tira do caminho que criastes para si. Quando vês estás perdido no amago. Com medo de não ser suficiente, de não ter nada a oferecer ao mundo.


Mas quando paras e encaras esse medo vês que ele tem as suas feições, seus sonhos, sua personalidade, seus desejos, pois ele não deixa de ser você. E quando reconheces esse medo, reconheces que, na verdade, isso que chamam de doença, é o reflexo de algo esquecido e mal cuidado dentro de você. Algo que apenas precisa ser reconhecido. Uma fúria que abala até mesmo o corpo. Uma fúria que luta pela liberdade de gritar “eu existo”. Um desejo profundo de liberdade. O medo também é o limite que impomos, pois tememos a responsabilidade da liberdade.


Vejo que o medo e a tristeza são tratados hoje como doenças. Quando na verdade são sentimentos tão profundos, tão significativos. São parte de nós, de nossa história, de nosso desafio. Quando alguém pede ajuda, não deve ser tratada como alguém doente, e sim como alguém que precisa libertar esses sentimentos suprimidos, para assim encontrar a liberdade dentro. Talvez isso seja coragem para mim. O reconhecer a mim mesma nesse medo, nessa tristeza. O saber que conseguirei me encontrar novamente, encontrar a mim, a meu caminho, o meu lugar no mundo e superar meu maior desafio “eu”.


Nego-me a me submeter ao medo.
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© Criado por Larissa Shanti

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