• Larissa Shanti

Conto sobre ELLA

Os tons de pastel pintavam o horizonte conforme o sol subia no céu. Os raios tocaram lentamente a pele de Ella. Preguiçosos eles dançavam entre as sombras pelas ruas da cidade, daquela cidade cinza, de pedra. A cidade daqueles que se esqueceram da cor no mundo, vendo apenas os tons de preto e branco.

Sonolentas as pálpebras abriam-se. Os olhos curiosos despertavam-se com tamanha beleza que o mundo lhe mostrava. Ella pulou correndo da cama, olhando pela janela àquela primeira manhã de verão. O sorriso crescia na face marcada pelo tempo, o sorriso pelas cores que surgiam no mundo, o sorriso pela vida que despertava a sua frente.

Silenciosamente ela pegou sua mochilinha, arrumada as escondidas, e com seus pequenos pés cambaleantes caminhou até a janela. Seu coração batia rápido, um retumbar da vida que dançava nela, que despertava aquela sua energia infantil. Sentindo-se mais viva, foi até a janela e, como uma criança fazendo estripulia, pulou da janela. O baque do impacto doeu em seus ossos, mas Ella não se importou, ela estava fora. Livre. Começou a caminhar pelas ruas desertas, desertas, pois as pessoas esqueceram do que é sentir o ar gélido da manhã despertar a alma, despertar as cores dos olhos.

Ella caminhou pela rua, seu pequeno corpo saltitava pelas pequenas poças de água, encharcando seu pijama roxo de florzinhas. Quando sua memória lembrou. Essa memória tão curta, finalmente tinha lembrado. Sacolejando caminhou em direção ao som que a chamava. O mar. O sal, o som, seu ser sentia a serenidade. Já seus olhos perderam-se no lago de suas emoções e sua imaginação fluía, misturada com pedaços de memória.

O mar batia no casco do navio, a espuma saltava tentando alcançar seus pés, mas tão longe estava, ao mesmo tempo tão perto. A proa do navio balançava com o ritmo das ondas, desafiando o equilíbrio de seu corpo que dançava a borda do navio. As pessoa a seu redor a olhavam com julgamento nos olhos, achavam-na louca, mas Ella não se importava.

Ela era de certa forma louca, e preferia ser, pois mais ninguém entenderia a sensação das cocegas que o vento fazia quando tocava seu pescoço, ou da música que as ondas cantavam conforme quebravam no casco, ninguém entenderia que ela dançava o ritmo do sol e da lua. Ninguém entenderia a não ser aquele garoto, aquele que surgiu do nada, aquele que a intrigava. Ele nunca falava, mas ele dançava com ela ao som do vento, e entendia o ritmo das cores.

Ella dançava pela praia, e ele dançava a seu lado pelas ondas, seu corpo, agora jovem, carregava o espirito da vida, a vitalidade do amor que a enriquecia, sua imaginação perdida entre o presente e o passado, entre ele e ela.

Ele olhava para ela, seus olhos, profundas esmeraldas, falavam para ela sobre a beleza do mundo, sobre como as pessoas haviam se perdido de si, deixado de acreditar nas cores que existiam dentro delas, por isso o mundo já não era mais belo.


-Ah, como o mundo é belo amor. – Disse Ella conforme seus pequenos pés se perdiam entre a areia e sua imaginação.


Imaginou-se jovem, conforme olhava o por do sol com ele a seu lado. Perdida na imensidão do espaço e tempo. Perdida na beleza do mundo, da vida que a rodeava, que surgia de cada partícula. Era como se essa beleza a invadisse, e despertasse nela a confiança em si mesma.


-Achei você, Dona Ella. – Disse uma voz trazendo-a de volta para o presente.


Seu corpo deixou de ter a vitalidade da infância, seu coração apenas uma brasa de paixão. Suas feições, enrijecidas pelo tempo, seus pequenos pés maculados pela falta de força para sustentar seu próprio corpo. Ela se sentiu velha, sozinha. Ele a muito a havia deixado, e ela aos poucos se esquecia de confiar em si mesma, o mundo, devagar, se tornava mais cinza. Vai ver é assim que eles vêm o mundo pensou Ella. Respirando fundo ela guardou essa brasa de beleza em seu coração e olhou para a cuidadora do lar de idosos.


-Como a senhora conseguiu fugir, Dona Ella? A senhora nos matou de susto. –Disse a cuidadora.


Olhando para ela com indiferença, deu seu braço para a jovem a ajudar a caminhar de volta para casa.


-Ahh, não. Se a senhora caminhou até aqui sozinha é porque consegue. E quem sabe no caminho não paramos para tomar um café e a senhora não me ensina a dançar do jeito que estavas dançando. – Disse a jovem piscando.


Ella olhou para a jovem e entendeu o que ela estava dizendo, entendeu que ela também era uma alma livre que via as cores do mundo. Sorrindo, quase sem dentes, Ella olhou para a moça e contou-lhe sobre as belezas da vida.




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