• Larissa Shanti

O Louco (parte 1)

Um conto que escrevi a muito tempo atrás, e que me inspirou a escrever um livro.


Água. Nada mais que uma torrente de água caía do céu. O mundo inteiro desabava com os pingos da chuva sobre aquela floresta escura. As árvores repletas de musgos e parasitas cresciam recurvas, enroladas entre si, como uma dança, uma batalha pelo sol. As copas se fechavam, formando um céu de folhas verdes escuras, que bloqueava, até mesmo, as menores fagulhas de luz dos relâmpagos daquela tempestade. Não havia ali uma alma viva, além dele.

Ele caminhava por meio dos arbustos repletos de espinhos. Suas botas afundavam no solo fofo lamacento. Seu capuz quase não protegia seu cabelo cacheado encharcado. A cólera era predominante em seu rosto pálido pelo frio. Carregava em seus ombros uma pequena mochila preta de couro e, aos seus pés, acompanhava-o seu parceiro, um filhote vira-lata.

De nada o filhote entendia da raiva do dono, saltava de um lado para outro. Enquanto o dono em voz baixa, mas não menos cheia de raiva, dizia.

–Aqueles desgraçados! Nada mais temos, nada. – Abaixou-se e, devagar, acariciou o filhote todo molhado. –Eles nos roubaram, Alex. Não temos mais nada! Esta vai ser uma noite dura.

Um estrondo muito maior que o ruído dos trovões retumbou pela noite. Ele levantou-se em um sobressalto. Alerta olhou ao redor. Ouviu vozes. As mesmas vozes que ele ouvira horas anteriormente quando tiraram dele seus únicos pertences e o amarraram a uma árvore. Pelo menos assim ele conhecera Alex. Levou horas para ele conseguir se soltar e, quando o fez, apenas fugiu. Correu o mais rápido possível até a chegada daquela chuva que o atrasara e o desorientara.

O som das vozes se aproximava. Tentando ser o mais silencioso possível, correu para trás de um arbusto, ao pé de uma grande árvore morta, caída. Dava para ouvir os passos e o som de correntes sendo arrastadas. Por entre os espaços das folhas ele olhou para o grupo de dez homens armados que caminhavam tão perto de seu esconderijo. Dois deles ele reconhecia, eram os homens que o haviam roubado mais cedo. No meio do grupo, preso por quatro correntes, tinha um homem. Sua pele era pálida com profundas olheiras negras. Suas roupas simples de presidiário. A única coisa que realmente parecia pertencer a ele do que ele vestia era a cartola negra que cobria parte seu cabelo longo e vermelho.

Os homens a seu redor pareciam temê-lo. De repente o rádio, daquele que parecia ser o líder tocou.

–Estão com o lunático?—Perguntou uma voz desconhecida.

–Sim, senhor!—respondeu o dono do rádio.

–Traga-o para mim, temos contas a acertar. E não o deixe escapar desta vez, Greg.

O homem pareceu nervoso com a ameaça por trás das palavras do líder. Mas não deixou-se abalar. Apertando um pouco mais as correntes do louco, começou a dar ordem para continuarem a marcha. Quase que ele viu o sorriso no rosto do louco. E conforme eles, devagar, voltavam à marcha, o louco olhou para o lado, para o arbusto em que ele espiava tudo, e sorriu.



Assim que o som dos passos parecia distante, o garoto, “de quem apenas mais tarde descobri o nome”, Aron, saiu de seu esconderijo.

–Que droga está acontecendo aqui, Alex? É claro que você não tem como me responder, não é mesmo. –Andando de um lado para outro, Aron parecia impaciente. –Eles não só são ladrões dissimulados, como aparentemente estão raptando pessoas. E o que eles querem dizer com lunático?

– Você é que deve me achar louco, né, Alex? –Falou Aron –Por mais terrível que isso possa soar, essas pessoas, esse louco precisa de ajuda. Acho que temos que ir atrás deles e ver se conseguimos socorre-lo. O que você acha, Alex?

Quando ele olhou para Alex, quase não conseguiu conter a risada ao ver o filhote rolando na lama, como se nada de ruim estivesse acontecendo. Sem querer perder mais tempo, eles, juntos, começaram a seguir os homens que os haviam roubado, e que carregavam com ele um prisioneiro.

Era o início de sua nova jornada. “E quem sabe talvez uma das mais perigosas das suas vidas. Este detalhe eu ainda tenho que descobrir”.

Eles saíram em busca dos rastros dos onze homens. Era impressionante ver como eles, mesmo sendo tantos, conseguiram encobrir seus vestígios tão bem. Mas o louco, a o louco. O louco que a cada passo se mostrava mais sábio do que louco. Um fio da sua camiseta presa em um galho de árvore, um botão no chão, uma pegada bem marcada, marcas dos grilhões...

Seguiram o rastro do louco, correndo silenciosamente, com medo da chuva apagar os rastros. Começou a clarear, a chuva virou uma garoa. Em seu rosto via-se o cansaço.

–Vamos parar, Alex. Precisamos descansar um pouco.

Deitando-se no chão enlameado, um do lado do outro, dormiram. “E me pergunto se sonharam, se tiveram pesadelos ou se teriam pesadelos, pois a próxima coisa que aconteceu foi assustadora”.

Aron acordou em um sobressalto. Ofegante. A seu redor estavam cinco dos homens que ele vira anteriormente. Apontavam armas para sua cabeça.

--Droga! –Disse ele.

Os homens sorriram ao vê-lo se render. O que ele poderia fazer? Ele estava preso, com cinco armas voltadas para sua cabeça, não comia há mais de um dia, estava encharcado e ainda tinha que cuidar de Alex. Alex, onde estava Alex? Sumira. Desaparecera. “Bem melhor para ele que não teria que ser carregado como prisioneiro”.

Aquele parecia ser seu fim. Passaram-se horas em que ele foi carregado pelos homens através da mata, até chegarem a uma clareira. Lá o vendaram e a próxima coisa que ele ouviu foi o som daquela voz desconhecida que ele ouvira no rádio.

–Então esse é o ratinho que vem seguindo vocês. – Falou o chefe

– Sim, senhor –Respondeu um dos seus captores. – Ele vem trazendo grandes problemas para nossas tropas, senhor.

–Jogue-o na cela que logo ele estará cooperando conosco.

–Afirmativo, senhor.

–Posso saber o porquê de vocês estarem raptando pessoas? – Perguntou corajosamente Aron.

– Você, além de estúpido, é insolente, não é mesmo? – Disse o líder, enquanto dava um tapa na nuca dele. –É tudo questão de negócios. Você não iria entender.

Os guardas o tiraram dali a força, enquanto ele parecia extasiado com o que acabara de ouvir. Quando ele viu, estava em uma cela escura e molhada. Sozinho. Encolhido num canto. O mais certo era que morreria de pneumonia. Ele quase adormecera, entretanto uma voz encheu o espaço escuro.



18 visualizações

© Criado por Larissa Shanti

  • Preto Ícone Instagram
  • Preto Ícone YouTube
  • Preto Ícone Facebook
  • Preto Ícone Spotify
  • Preto Ícone Pinterest
  • Preto Ícone Deezer
  • Preto Ícone iTunes